18/05/2012

universo feminino




O senso comum diz que a mulher se veste pra mulher. Bom, acho uma enorme baboseira. Mas é fácil jogar a culpa em nós. Só que isso é antigo…e sempre foi bom para os homens. 
Com a indústria pornô, agora até clareamento anal é uma exigência masculina. Segundo pesquisas, a prática está em vários lugares do mundo, devido à globalização e acesso do porn pela internet.
Tem coisa mais nazi que isso? 



08/05/2012

né?


ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1983. pp. 15-77. 

ARIÈS, Phillippe. Para uma história da vida privada. In: ARIÈS, P. & DUBY, G. (Orgs.). História da vida privada (vol. 3). Lisboa: Afrontamento, 1990, pp. 7-19. BRIGGS, Asa; 

BURKE, Peter. Uma história social da mídia : de Gutenberg à Internet. 2.ed. revista e ampliada. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. pp. 11-79. 

DORÉ, Andréa; LIMA, Luís Felipe Silvério; 
SILVA, Luiz Geraldo (Orgs.). Facetas do Império na História : conceitos e métodos. São Paulo: HUCITEC, 2008. ELIAS, Norbert. O processo civilizador : formação do Estado e civilização. Rio de Janeiro: Zahar, 1993. (sinopse) pp. 193-249.UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ SETOR DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA Rua General Carneiro, 460, 7o andar, sala 716 CEP 80060-150, Curitiba/PR, Brasil Fone/Fax: (41) 3360 5086 E-mail: cpghis@ufpr.br Web: www.poshistoria.ufpr.br

FLORI, Jean. A Cavalaria : a origem dos nobres guerreiros na Idade Média. São Paulo: Madras, 2005. FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 2005. 

GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas e sinais : morfologia e história. São Paulo: Cia. das Letras, 1989. LEVI, Giovanni. A herança imaterial : trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.


MARTINS, Estevão de Rezende. O renascimento da História como ciência. In: MARTINS, Estevão de Rezende (Org.). A História pensada : teoria e método na historiografia européia do século XIX. São Paulo: Contexto, 2010. pp. 7-14. REVEL, Jacques. Recursos narrativos e conhecimento histórico. In: 

REVEL, Jacques. História e Historiografia : exercícios críticos. Curitiba: Ed. UFPR, 2010. pp. 205-233.


SMITH, Bonnie G. Gênero e História : homens, mulheres e a prática histórica. Bauru: Edusc, 2003. THOMPSON, E. P. Costumes em comum. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.

10/04/2012

Por uma vida nao-fascista


Introdução a uma vida não fascista1
Durante os anos 1945-1965 (falo da Europa) existia uma certa forma correta de pensar, um certo estilo de discurso político, uma certa ética do intelectual. Era preciso ser unha e carne com Marx, não deixar seus sonhos vagabundearem muito longe de Freud e tratar os sistemas de signos - e significantes - com o maior respeito. Tais eram as três condições que tornavam aceitável essa singular ocupação que era a de escrever e de enunciar uma parte da verdade sobre si mesmo e sobre sua época.
        Depois, vieram cinco anos breves, apaixonados, cinco anos de jubilação e de enigma. Às portas de nosso mundo, o Vietnã, o primeiro golpe em direção aos poderes constituídos. Mas aqui, no interior de nossos muros, o que exatamente se passa? Um amálgama de política revolucionária e anti-repressiva? Uma guerra levada por dois frontes - a exploração social e a repressão psíquica? Uma escalada da libido modulada pelo conflito de classes? É possível. De todo modo, é por essa interpretação familiar e dualista que se pretendeu explicar os acontecimentos desses anos. O sonho que, entre a Primeira Guerra Mundial e o acontecimento do fascismo, teve sob seus encantos as frações mais utopistas da Europa - a Alemanha de Wilhem Reich e a França dos surrealistas - retornou para abraçar a realidade mesma: Marx e Freud esclarecidos pela mesma incandescência.
        Mas é isso mesmo o que se passou? Era uma retomada do projeto utópico dos anos trinta, desta vez, da escada da prática social? Ou, pelo contrário, houve um movimento para lutas políticas que não se conformavam mais ao modelo prescrito pela tradição marxista? Para uma experiência e uma tecnologia do desejo que não eram mais freudianas? Brandiram-se os velhos estandartes, mas o combate se deslocou e ganhou novas zonas.
        O Anti-Édipo mostra, pra começar, a extensão do terreno ocupado. Porém, ele faz muito mais. Ele não se dissipa no denegrecimento dos velhos ídolos, mesmo se se diverte muito com Freud. E, sobretudo, nos incita a ir mais longe.
        Ler o Anti-Édipo como a nova referência teórica seria um erro de leitura (vocês sabem, essa famosa teoria que se nos costuma anunciar: essa que vai englobar tudo, essa que é absolutamente totalizante e tranqüilizadora, essa, nos afirmam, “que tanto precisamos” nesta época de dispersão e de especialização, onde a “esperança” desapareceu). Não é preciso buscar uma “filosofia” nesta extraordinária profusão de novas noções e de conceitos-surpresa. O Anti-Édipo não é um Hegel brilhoso. A melhor maneira, penso, de ler o Anti-Édipo é abordá-lo como uma “arte”, no sentido em que se fala de “arte erótica”, por exemplo. Apoiando-se sobre noções aparentemente abstratas de multiplicidades, de fluxo, de dispositivos e de acoplamentos, a análise da relação do desejo com a realidade e com a “máquina” capitalista contribui para responder a questões concretas. Questões que surgem menos do porque das coisas do que de seu como. Como introduzir o desejo no pensamento, no discurso, na ação? Como o desejo pode e deve desdobrar suas forças na esfera do político e se intensificar no processo de reversão da ordem estabelecida? Ars erótica, ars theoretica, ars politica.
        Daí os três adversários com os quais o Anti-Édipo se encontra confrontado. Três adversários que não têm a mesma força, que representam graus diversos de ameaça e que o livro combate por meios diferentes.
        1) Os ascetas políticos, os militantes sombrios, os terroristas da teoria, esses que gostariam de preservar a ordem pura da política e do discurso político. Os burocratas da revolução e os funcionários da verdade.
        2) Os lastimáveis técnicos do desejo - os psicanalistas e os semiólogos que registram cada signo e cada sintoma e que gostariam de reduzir a organização múltipla do desejo à lei binária da estrutura e da falta.
        3) Enfim, o inimigo maior, o adversário estratégico (embora a oposição do Anti-Édipo a seus outros inimigos constituam mais um engajamento político): o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e de Mussolini - que tão bem souberam mobilizar e utilizar o desejo das massas -, mas o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar essa coisa que nos domina e nos explora.
        Eu diria que o Anti-Édipo (que seus autores me perdoem) é um livro de ética, o primeiro livro de ética que se escreveu na França depois de muito tempo (é talvez a razão pela qual seu sucesso não é limitado a um “leitorado” particular: ser anti-Édipo tornou-se um estilo de vida, um modo de pensar e de vida). Como fazer para não se tornar fascista mesmo quando (sobretudo quando) se acredita ser um militante revolucionário? Como liberar nosso discurso e nossos atos, nossos corações e nossos prazeres do fascismo? Como expulsar o fascismo que está incrustado em nosso comportamento? Os moralistas cristãos buscavam os traços da carne que estariam alojados nas redobras da alma. Deleuze e Guattari, por sua parte, espreitam os traços mais ínfimos do fascismo nos corpos.
        Prestando uma modesta homenagem a São Francisco de Sales, se poderia dizer que o Anti-Édipo é uma Introdução à vida não fascista.[1]
        Essa arte de viver contrária a todas as formas de fascismo, que sejam elas já instaladas ou próximas de ser, é acompanhada de um certo número de princípios essenciais, que eu resumiria da seguinte maneira se eu devesse fazer desse grande livro um manual ou um guia da vida cotidiana:
        - Libere a ação política de toda forma de paranóia unitária e totalizante;
        - Faça crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, mais do que por subdivisão e hierarquização piramidal;
        - Libere-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, a castração, a falta, a lacuna), que o pensamento ocidental, por um longo tempo, sacralizou como forma do poder e modo de acesso à realidade. Prefira o que é positivo e múltiplo; a diferença à uniformidade; o fluxo às unidades; os agenciamentos móveis aos sistemas. Considere que o que é produtivo, não é sedentário, mas nômade;
        - Não imagine que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo que a coisa que se combata seja abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga, nas formas da representação) que possui uma força revolucionária;
        - Não utilize o pensamento para dar a uma prática política um valor de verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele fosse apenas pura especulação. Utilize a prática política como um intensificador do pensamento e a análise como um multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política;
        - Não exija da ação política que ela restabeleça os “direitos” do indivíduo, tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é o produto do poder. O que é preciso é “desindividualizar” pela multiplicação, o deslocamento e os diversos agenciamentos. O grupo não deve ser o laço orgânico que une os indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de “desindividualização”;
        - Não caia de amores pelo poder.
        Se poderia dizer que Deleuze e Guattari amam tão pouco o poder que eles buscaram neutralizar os efeitos de poder ligados a seu próprio discurso. Por isso os jogos e as armadilhas que se encontram espalhados em todo o livro, que fazem de sua tradução uma verdadeira façanha. Mas não são as armadilhas familiares da retórica, essas que buscam seduzir o leitor, sem que ele esteja consciente da manipulação, e que finda por assumir a causa dos autores contra sua vontade. As armadilhas do Anti-Édipo são as do humor: tanto os convites a se deixar expulsar, a despedir-se do texto batendo a porta. O livro faz pensar que é apenas o humor e o jogo aí onde, contudo, alguma coisa de essencial se passa, alguma coisa que é da maior seriedade: a perseguição a todas as formas de fascismo, desde aquelas, colossais, que nos rodeiam e nos esmagam até aquelas formas pequenas que fazem a amena tirania de nossas vidas cotidianas.
Michel Foucault


via 


18/02/2012

Liberdade...


Para Heidegger  plantar um alqueire de terra requer técnica, mas quando se quer dominar a natureza a técnica moderna aparece. A Razão Instrumental se baseia na Dominação do homem e da natureza. A técnica vazou para a arte e para o cotidiano. Dentro de casa ao invés de ter objetos que nos dizem muito, temos objetos que só resta como signo, sem raíz.  Bom, isso segundo Baudrillard, ok? Então a técnica ao invés de nos dar liberdade nos torna dominados.
Então todo lugar vira um não-lugar. Mas daí surgem os que se colocam em oposição a isso e lançam novos modos de vida. Infelizmente, como diz Harvey, a vanguarda está condenada a conquistar, pela influência da moda, a própria popularidade que um dia desdenhou. É o que Foucault diz de que quanto mais nos debatemos, mais elos adicionamos às correntes.

12/12/2011

Triers e Ophelia


 Ophelias perdidas entre a subjetividade do consumo e a liberdade.

Ophelia e Damásio!




Entrevista para O Globo sobre seu último livro. Eu pensei muito nele quando estava criando a série e o texto de Ophelia. Saber suportar a dor...e controle químico. 








Em “E o cérebro criou o homem”, você diz que nosso entendimento da consciência se beneficia de um “legado conceitual” da filosofia e da psicologia e de um “legado neural” da biologia e da neurociência. Até que ponto esses campos do conhecimento podem ser complementares? 

ANTÓNIO DAMÁSIO: Acredito que esses campos são complementares, mas há imensas barreiras entre eles. Tenho tentado ajudar a promover esse diálogo. Quando comecei a estudar questões relacionadas à emoção, ao sentimento e à tomada de decisões, ficou clara para mim a ligação entre a neurociência e os campos do conhecimento que sempre se dedicaram ao que há de mais básico na vida, os grandes dramas humanos de decidir o que é bom e o que é mau, buscar a felicidade, rejeitar a dor e a tristeza. Como sou neurologista por formação, estou interessado em saber como o cérebro se comporta nessas situações e também quero contribuir para o tratamento de doenças como o Alzheimer e a depressão. Mas o que me fascina é que a neurociência está empenhada em resolver questões com as quais artistas e filósofos lidam há séculos. Aristóteles, Dante, Shakespeare e Spinoza pensaram nos problemas mais profundos da humanidade, e nós também. 


Mas onde esses campos podem entrar em atrito? Sobretudo no que diz respeito aos métodos. Da perspectiva de artistas e filósofos, a objetividade científica pode parecer redutora. Mas no fundo não há tanta incompatibilidade. No Instituto Cérebro e Criatividade, que fundamos na Califórnia, temos visto que artistas e pensadores gostam de se aproximar dos cientistas — se não forem maltratados, claro (risos). Em nossos estudos sobre como o cérebro lida com a melodia e as estruturas musicais, por exemplo, temos a colaboração de muitos músicos, como Yo Yo Ma. Tenho esperança que essa dita barreira entre ciências e humanidades se resolva no futuro. 


A filosofia está muito presente em seu trabalho. No novo livro, muitas proposições sobre a consciência estão ancoradas na obra de William James. E outros livros seus remetem a Descartes e Spinoza. Como as ideias de filósofos sobre a mente humana contribuíram para o desenvolvimento da neurociência? 
Ao se aproximar dessas grandes questões de que falamos, a filosofia formulou inúmeras teorias. Nas últimas três décadas, com os avanços da neurociência, podemos verificar cientificamente algumas delas. Muitos pensadores da virada do século XIX para o XX, como William James e, em certo sentido, Freud, podem ser apontados como precursores da neurociência atual. A diferença é que hoje podemos testar hipóteses que há cem anos não eram verificáveis. 


Com isso, pode haver o caminho inverso, com a neurociência influenciando a filosofia? 

Sim, vejo jovens filósofos extremamente alerta para o que se passa no campo da neurociência. As gerações mais antigas muitas vezes pensam que a neurociência tenta roubar da filosofia seus temas tradicionais. Mas entre os mais jovens há uma grande abertura para as contribuições da neurociência, o que é vantajoso para ambos. 


Um dos pontos centrais do novo livro é o estudo de como o cérebro constrói a mente e como torna essa mente consciente, uma questão central também na história da filosofia. Em que estágio de compreensão desses fenômenos a neurociência se encontra hoje? 
Hoje é possível dizer com mais convicção que aquilo que chamamos de mente é o resultado de mapas neurais que construímos, alguns muito ligados ao corpo, outros mais ligados ao meio que nos circunda. Quanto ao modo exato como a consciência é construída, obtivemos uma série de progressos, mas ainda há questões em aberto. No livro descrevo como pesquisas recentes mostram que, ao contrário do que muitos acreditam, o córtex cerebral não é a única “base” da consciência. O nível mais alto tem muito a ver com o córtex, mas níveis mais simples têm a ver sobretudo com o tronco cerebral. E a identificação da base neural exata dos sentimentos, o problema neurocientífico que mais me interessa, ainda está em desenvolvimento. Acredito que nos próximos cinco ou dez anos teremos resultados notáveis sobre como o cérebro constrói o eu. 


Com os avanços recentes, a neurociência corre o risco de cair no triunfalismo? 
Se não chegarmos a entender tudo também não será um desastre, porque há tanta complexidade e beleza no ser humano que não faz mal se fica algum mistério, não é? (risos) O importante é que o progresso do conhecimento não cause uma perda de humanidade. Fico desapontado quando dizem que a neurociência reduz tudo ao cérebro e a circuitos nervosos. Reduzir a natureza humana a neurotransmissores, dopamina e serotonina é muito triste. 


Mas esse reducionismo é comum hoje, não? Como você avalia a presença da neurociência na cultura popular atual? 
O sucesso da neurociência faz com que muitos caiam em explicações simplistas. Tudo que tem relação com o cérebro é complexo, e por isso os neurocientistas devem se explicar mais, sempre. O reducionismo traz muitos riscos. Há quem acredite que podemos resolver a dor e a tristeza só tomando pílulas, o que é ridículo. Medicamentos não são a única solução. Estamos imersos em afetos, relações sociais, a justiça, a política, a economia... Não se pode isolar o cérebro disso tudo. Não é vantajoso neurologizar todos os problemas que temos.

05/12/2011

Pros Finalmente

Ela tinha um vício. Ninguém sabia, nem sequer desconfiavam. Ela entrava na Internet, depois que todos dormiam, digitava uma palavra no google e clicava em acadêmicos. Neste instante, já começava a suar. Escolhia bem o artigo e abria, corria para o fim e se deparava com a Bibliografia. Êxtase. A situação começou a ficar difícil quando ela andava pelo centro da cidade e tinha que entrar em um sebo ou livraria para olhar alguma bibliografia. Começou a ficar preocupada. Achou melhor ter um relacionamento de verdade. Chamou um antigo namorado para sair, pensou...será que ele melhorou? Mal ele chegou ao apartamento e ela já foi logo para os finalmente: pulou sobre ele e perguntou: Atualizou tua bibliografia básica?

29/11/2011

m-eu consumo




Cordelete Thierry Mugler


Estava pensando em uma passagem do Livro Moda e Comunicação de Barnard, na qual ele comenta que os dois modelos de feminilidade são as sereias sexies e perigosas e as donas de casa. Engraçado, mas se analisarmos alguns estilos que existem hoje, podemos entrecruzar esses dois modelos.  A estética do neohippie, é muito mãe. Batas e volumes nos quadris, revelando a maternidade. As cinquentinhas tatuadas e independentes são sereias. As cinquentinhas românticas, donas de casa. A futurista anos 80 era total curve, como as mulheres de Thierry Mugler, sereias em tudo! A Twiggy é a andrógena e está para o quê? Nem sereia nem dona de casa...

Depois dos anos 90, a estética de infantilizar veio forte, influência japonesa (Fruits) e do vazio que toma conta daquela época: onde ninguém poderia ter uma conversa adulta (tudo era ridicularizado com a frase :"ai, que papo cabeça"). Isso que nem vou falar nos homens, com seus brinquedinhos e o arremate pueril. Mas as sereias hoje estão nas Barbies anoréxicas, secas e sem curvas. Como? Não faz muito sentido, Barbie sereia? É, existe uma sereia na anoréxica Barbie Sereia. E ela ainda não completou 18 anos e nem nunca vai completar, quer ter sempre seu corpo de adolescente. Para que os homens exigentes possam ter  mais um brinquedinho. Aliás, o conceito mais legal dos últimos dias, do que andei lendo,  foi o de Bauman, sobre a existência mimada: de tanto o marketing se esforçar para nos atender em tudo e satisfazer os desejos mais loucos e absurdos, viramos seres comodizados. O problema é que queremos que nossas relações sejam assim, baseadas no interesse e tendo como base o valor de mercado. Portanto, para sermos aceitos, precisamos nos construir desde que nascemos, desde que possuímos um nome. Temos que nos construir e o mais triste de tudo é perceber que as crianças estão incorporando essas regras e enxergando no consumo a ferramenta mais importante de socialização. Mas não acreditem quando dizem isso, que o consumo ajuda a explicar a realidade e a nos enxergarmos. É ilusão, pura ilusão. É o espelho da madrasta, ela se via mas queria tudo pra ela. O consumo só nos torna mais consumíveis, para explicar a realidade precisamos pensar, refletir e criar. Isso o consumo não nos dá, ele é o escape disso.
OBS: Não que eu seja contra o consumo. Eu sou a favor do consumo consciente e de poder ver coisas bonitas mas saber que não precisa ter tudo, querer saber de onde vem, não cair nas ilusões do produto que se diz sustentável sem pesquisar e sou completamente a favor de comprar produtos feitos por pessoas em casa, artesanalmente e de comunidades que preservam sua cultura, etc... 

28/11/2011

http://www.trendhunter.com/trends/koray-parlak-photos
Neste link, aquilo que eu já sabia: escapismo é uma tendência forte. Sabemos que somos enganados, mas quem quer abrir mão da existência mimada?

Ophelias














Depois de exatamente um ano que pesquisei as últimas imagens de Ophelia, elas se proliferaram na internet.  Veja mais sobre isso aqui...ophelia

22/11/2011

Confissão

Foucault comenta, em História da Sexualidade, que a confissão é uma prática ocidental e que inicia com a Igreja Católica e seus pecados e  que depois a psicanálise se apodera disto. Fiquei pensando nisso alguns dias e em como hoje tudo é delatado, através da imagem. Existe  maior confissão do que a imagem e a representação? A Era Moderna tem isso de demonstrar o que você é pelo que veste e por onde mora, ou seja, pelo gosto. O gosto delata você. Depois lendo A vida para Consumo do Bauman (amo) ele comenta que as redes sociais são confessionários. Pablo Neruda escreveu Confesso que vivi. Acabei de lembrar da foto que meu pai lê este livro e olha de soslaio para a câmera. Comecei a escrever isso pois ando percebendo que hoje, confessar que é preconceituoso, burro e ignorante está na moda. Maldito impulso mimético.

noam chomsky

O lingüista estadunidense Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” através da mídia:

1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranqüilas')”.

2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.

Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO.

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO.

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE.

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.

6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO.

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…

7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE.

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossível para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE.

Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…

9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE.

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM.

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

21/11/2011

17/11/2011

O que Naomi Klein e Drummond tem em comum?


EU ETIQUETA

Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.
Carlos Drummond de Andrade

16/11/2011

Chomsky

Retire do blog do Miro:
Meus comentários estão em negrito.




É um pouco difícil fazer uma Conferência Howard Zinn em uma atividade do movimento Occupy Boston. Surgem sentimentos distintos. Primeiro, tristeza por Howard não estar aqui, para participar e fortalecer, de seu modo particular, algo que teria sido um sonho em sua vida. Além disso, sinto entusiasmo pelo fato de o sonho ter se realizado. É um sonho no qual ele baseou muito de seu trabalho. Estar aqui com vocês teria sido a realização.



O movimento Occupy é entusiasmante. Espetacular, sem precedentes; nunca houve nada parecido de que eu possa me lembrar. Se os vínculos e associações que estão sendo estabelecidos aqui, nesses eventos excepcionais, se sustentarem por um longo período – porque as vitórias não vêm rapidamente – isso pode se tornar um momento muito significativo na história norte-americana.

O fato de as manifestações não terem precedentes é muito revelador. Vivemos um período único – não apenas esse momento, mas desde os anos 70. Naquela década começou um grande ponto de virada na história americana. Por séculos, desde que o país começou, existe uma sociedade em desenvolvimento, com altos e baixos. Mas o progresso geral era em direção à riqueza, industrialização e desenvolvimento – mesmo no escuro. Havia, inclusive em tempos muito difíceis, uma constante expectativa de que as coisas continuariam caminhando numa direção que suscitava esperanças.

Eu sou velho o suficiente para lembrar da Grande Depressão. Depois dos primeiros anos, em meados da década de 30, ainda que a situação fosse objetivamente muito mais complicada que hoje, o espírito era muito diferente. Existia um sentimento de que iríamos superar as dificuldades, até entre as pessoas que estavam desempregadas. Vai melhorar. O movimento militante dos trabalhadores estava se organizando. Foi chegando ao ponto das greves sit-down, que são muito assustadoras para o mundo dos negócios. Era possível compreender isso nos jornais de negócios da época. Uma greve sit-down estava a apenas um passo de tomar as fábricas. Além disso, as leis do New Deal estavam começando a surgir, graças a pressão popular. Existia um sentimento de que tiraríamos algo daquilo.

É bem diferente hoje. Agora, existe um sentimento universal de falta de esperança, ou de desespero. Penso que isso é novo na história norte-americana, e tem uma base objetiva. Em 1930, trabalhadores desempregados podiam prever realisticamente que teriam empregos novamente. Hoje – quando o nível de desemprego em fábricas é aproximadamente igual o da Depressão – sabemos que, se as tendências atuais persistirem, os empregos não vão voltar.

A mudança ocorreu nos anos 70, por várias razões. Uma delas, discutida principalmente por Robert Bernard, que estuda história econômica e tem diversos trabalhos sobre o tema, é uma queda dos lucros. Isso, em conjunto com outros fatores, levou a grandes mudanças na economia – invertendo 700 anos de progresso em direção à industrialização e ao desenvolvimento. Embicamos para um processo de desindustrialização e de de-desenvolvimento. A produção industrial prossegue, é claro, mas em outros continentes. Gera muitos lucros, mas não ajuda a força de trabalho. Junto com isso, ocorreu uma mudança significativa na economia: das empresas produtivas, que produzem o que as pessoas precisam, para a manipulação financeira. A financeirização da economia decolou na época.

Antes da década de 70, os bancos eram apenas bancos. Eles faziam o que os bancos devem fazer em uma economia capitalista: tomam capital que não está sendo utilizado – por exemplo, numa conta bancária – e o transferem para um propósito potencialmente útil, como comprar uma casa ou colocar o filho na faculdade. Não existiam crises financeiras. Era um período de enorme crescimento na história norte-americana, ou na história econômica geral. Nas décadas de 50 e 60, vivemos um crescimento sustentado e igualitário. Os mais pobres avançavam tanto quanto os mais ricos. Muitas pessoas alcançaram padrões de vida razoáveis – o que chamavam de “classe media”.

Era real, e a década de 60 acelerou esse processo. O ativismo daquela época, depois de uma década politicamente sombria, estabeleceu conquistas civilizatórias de grande alcance. Os anos 70 chegaram e de repente aconteceram mudanças drásticas na industrialização e transferência da produção para outros países. A importância das instituições financeiras aumentou imensamente. Além disso, nos anos 50 e 60, houve um desenvolvimento do que mais tarde se tornaria uma economia de alta tecnologia. Computadores, internet, a revolução de tecnologia da informação baseou-se principalmente nos anos 50 e 60, e substancialmente no setor estatal. Demorou algumas décadas para que realmente decolasse, mas foi desenvolvida nessa época.

A década de 1970 começou um tipo de círculo vicioso que levou à crescente concentração de riqueza nas mãos do setor financeiro, algo que não beneficia a economia. A concentração de riqueza leva à concentração do poder político — o que produz mudanças na legislação, ampliando e acelerando o círculo. Decisões como as mudanças na tributação, nas regras de governança corporativa e a desregulação foram adotadas pelos dois partidos, em consensos. Em paralelo, houve um aumento muito forte no custo das eleições, que tornou os partidos ainda mais dependentes das corporações.

Alguns anos depois, começou um processo diferente. Os partidos, em sua essência, dissolveram-se. Antes, um parlamentar que desejasse um posto de presidente de uma comissão ou outra posição de responsabilidade no Congresso, esperava alcançá-la por meio de experiência e trabalho. Mais recentemente, começou-se a investir dinheiro no partido, para progredir. Isso tornou todo o sistema mais atrelado ao setor corporativo, dentro do qual as instituições financeiras têm papel crescente. Deu-se uma concentração enorme de riquezas, principalmente em favor do 1% mais rico da população.

Enquanto isso, começou a se abrir, para a maioria, um período de estagnação – ou mesmo declínio. As pessoas mantinham-se com meios bastante artificiais – como empréstimos, com muitas dívidas. Longas jornadas de trabalho para muitos. O sistema político começou a se dissolver. Sempre houve uma diferença entre política pública e vontade da população, mas essa diferença cresceu astronomicamente. Vemos isso claramente, agora.

O maior assunto em Washington, o que concentra atenção de todos, é o déficit. Para o público, não se trata de um problema muito gave – o que está correto. O problema é a falta de emprego, não o déficit. Agora, existe uma comissão de parlamentares para enfrentar o déficit, mas não para resolver a questão do desemprego.

Se observarmos com atenção, veremos que o público tem opiniões claras, mesmo diante do déficit. Segundo as pesquisas, a sociedade apoia fortemente o aumento dos impostos pagos pelos ricos, que foram muito reduzidos durante o período de estagnação. A maioria também é a favor de manter os benefícios sociais limitados existentes. Mas a comissão parlamentar encarregada de reduzir o déficit provavelmente fará o oposto. Ou eles entrarão em acordo, decidindo em sentido contrário ao que a sociedade deseja, ou irão disparar um procedimento legislativo automático que terá os mesmos efeitos. É algo que acontecerá muito em breve. A comissão de déficit irá tomar uma decisão em algumas semanas. Os movimentos Occupy poderiam ser uma base para tentar lutar contra esta punhalada no coração do país.

Não é o caso de entrar nos detalhes, mas o que acontece há trinta anos é um tipo de pesadelo que foi antecipado pelos economistas clássicos. Quem lê A riqueza das nações, percebe que mesmo Adam Smith considerou a possibilidade de comerciantes e industriais na Inglaterra decidirem transferir seus negócios para outros países, investir neles e importar produtos estrangeiros. Eles poderiam lucrar com isso, mas a Inglaterra seria prejudicada. Smith continuou, afirmando que comerciantes e industriais prefeririam operar em seus próprios países, o que por vezes denominou “viés doméstico”. É como se a Inglaterra de então fosse salva da ruína do que hoje chamamos “globalização neoliberal” por uma mão invisível. No clássico A riqueza das nações, esta é a única ocorrência da célebre expressão “mão invisível”.

Outro grande economista clássico, David Ricardo, notou a mesma coisa e torceu para que não acontecesse. Um tipo de esperança sentimental. Não aconteceu por muito tempo, mas está acontecendo agora. Nos últimos trinta anos é exatamente isso que está em processo. Para a população em geral – os 99%, no imaginário do movimento Occupy – a situação está realmente difícil e pode piorar. Pode ser um período de declínio irreversível. Para o 1%, ou ainda o 0,1%, está tudo bem. Estão no topo, mais ricos e mais poderosos que nunca, controlando o sistema político e desconsiderando o público. Se podem, por que não continuar assim? É para isso Adam Smith e David Ricardo alertaram.

Tomemos o Citigroup, que por décadas foi a mais corrupta das corporações financeiras dos Estados Unidos. Ele foi repetidamente resgatado pelos contribuintes: nos primeiros anos do governo Reagan e novamente agora. Não vou me ater à corrupção. Vocês provavelmente sabem, e é espantoso. Alguns anos atrás, eles criaram uma oferta para investidores. Desejavam atrair quem tivesse interesse de colocar dinheiro no que chamaram de “índice plutonomy” [um híbrido de plutocracia e economia (nota da tradução)]. Diziam que o “índice plutonomy” era uma forma de superar os rendimentos do mercado de ações.

E quanto ao resto da sociedade? Nós os deixamos à deriva. Nós não nos importamos realmente, nem precisaremos deles. Eles precisam estar por perto para providenciar um Estado poderoso para nos proteger e para nos resgatar, quando estivermos com problemas. Mas, essencialmente, eles não têm função. Por vezes, são chamados de precariado, pessoas que vivem uma existência precária na periferia da sociedade. Só que não é mais a periferia; está se tornando uma parte substancial da sociedade nos Estados Unidos e também em outros países.

Isso é considerado uma coisa boa. Certa vez, [o então presidente do Banco Central], Alan Greenspan – que, antes da quebra, era “Santo Alan”, aclamado por economistas como um dos grandes economistas de todos os tempos – depôs ao Congresso. Eram os anos do governo Clinton e ele explicava as maravilhas da economia. Disse que muito do sucesso estava baseado no que ele chamou de “crescente insegurança do trabalhador”. Se os trabalhadores estão inseguros, se eles são precariado, não farão demandas, não ganharão salários, não receberão benefícios e nós podemos deixá-los de lado, se não gostarmos deles. Isso é bom para a economia… Era o que Greenspan chamava tecnicamente de economia saudável. Ele foi muito elogiado por isso…

Bem, agora o mundo está realmente se dividindo entre plutonomy e o precariado – novamente, para citar o imaginário do movimento Occupy, o 1% e os 99%. O plutonomy é onde está a ação. Poderia continuar assim, e nesse caso a inversão história que começou em 1970 se tornaria irreversível. É nesse caminho que estamos. Os movimentos Occupy são a primeira grande reação popular que pode evitar isso. Será necessário enfrentar o fato de que essa é uma luta longa e difícil. Vocês não irão vencer amanhã. Vocês precisam continuar e formar estruturas que serão sustentadas em tempos difíceis e então poderão alcançar grandes vitórias. Há muitas coisas que podem ser feitas.

Mencionei antes que, nos anos 30, uma das ações mais efetivas foram as greves sit-down. A razão era muito simples: era o passo imediatamente anterior a tomar a indústria. Durante os anos 70, quando o declínio se instalava, surgiram alguns eventos importantes. Em 1977, a US Steel decidiu fechar uma de suas maiores fábricas: Youngstown, em Ohio. Em vez de simplesmente deixá-la sair, os trabalhadores e a comunidade decidiram unir-se, comprar a fábrica e convertê-la em uma indústria gerida pelos trabalhadores. Não venceram – mas poderiam, com maior apoio popular. Foi uma vitória parcial, porque apesar de terem perdido, incentivaram outras lutas atuais – em Ohio e outros lugares.

Há, hoje, uma profusão – centenas, talvez milhares – de fábricas pequenas ou não tão pequenas que são (total ou parcialmente) de propriedade de trabalhadores. Poderiam ser geridas pelos trabalhadores. Existe base para uma revolução real. Ela pode ganhar terreno. É um processo que se dá aqui mesmo. Em um dos subúrbios de Boston, uma multinacional decidiu fechar uma fábrica produtiva, funcional e rentável –mas não suficientemente rentável, para eles. Os trabalhadores e o sindicato ofereceram-se para comprar e gerir a fábrica. A multinacional decidiu fechá-la – provavelmente, por razões de consciência de classe. Se houvesse apoio popular suficiente, se algo como esse movimento tivesse envolvido as pessoas, os trabalhadores poderiam ter conseguido.

Fatos assim estão ocorrendo, e alguns deles são grandes. Há não muito tempo, durante a crise, Barack Obama encampou a indústria automobilística. Hoje, ela é basicamente propriedade pública. Várias coisas poderiam ter sido feitas. Uma é o que se deu. Recuperá-la e devolvê-la aos proprietários, ou a um proprietário similar, para que siga seu caminho tradicional. A outra possibilidade era o governo entregar as empresas aos trabalhadores; e eles fazerem dela uma instituição de propriedade dos trabalhadores, um grande sistema industrial gerido por trabalhadores. Um sistema que se responsabiliza por boa parte da economia e que produz o que as pessoas precisam. E há muitas coisas de que as pessoas precisam. Todos sabemos, ou deveríamos saber, que os Estados Unidos estão muito atrasados, em termos mundiais, nos transportes de alta velocidade. Isso é muito sério: afeta as vidas das pessoas e a economia.

Tenho uma história pessoal. Fiz palestras na França, há alguns meses, e acabei em Avignon, no sul. De lá, tive que tomar um trem para o aeroporto, em Paris. A viagem demorou duas horas. É a mesma distância de Washington a Boston. É um escândalo. Temos capacidade para um sistema de transportes semelhante ao francês, e uma força de trabalho capacitada. A construção precisaria de algum apoio popular. Produziria mudanças imensas na economia. Só para tornar os fatos ainda mais surreais, informo: enquanto se evitava essa opção, o governo Obama enviou o secretário de Transportes para a Espanha, encarregando-o de negociar a construção de linhas de trem de alta velocidade nos Estados Unidos. Isso poderia ser feito próprio Rust Belt [o Cinturão da Ferrugem, grande concentração de indústria pesada no noroeste dos EUA, hoje decadente], que está sendo fechado. Não há razão econômica para que isso aconteça. Há razões de classe e falta de mobilização política.

Há muitos desenvolvimentos perigosos no cenário internacional. Dois deles são uma espécie de sombra sobre quase tudo o que discutimos. Há, pela primeira vez na história da humanidade, ameaças reais à paz e à sobrevivência das espécies. Uma delas faz parte do cenário desde 1945: é quase um milagre termos escapado das armas nucleares. É uma ameaça que está sendo, hoje, ponderada pelo governo e pelos aliados. Algo tem que ser feito sobre isso, ou viveremos grandes problemas. A outra, é claro, é a catástrofe ambiental. Todos os países do mundo estão falando, mesmo que timidamente, em fazer algo em relação a isso. Os Estados Unidos também estão caminhando, mas no sentido de acelerar a ameaça. Os EUA são hoje o único país que, além de não fazerem nada construtivo a respeito, andam para trás.

O Congresso está agora revertendo a legislação instituída pelo governo de Richard Nixon (Ele foi o último presidente liberal dos Estados Unidos, e isso mostra, literalmente, o que está acontecendo). Os congressistas estão desmontando as medidas limitadas que o governo Nixon tomou para tentar enfrentar a catástrofe ambiental emergente. Este movimento está ligado a uma enorme máquina de propaganda, que pinta o aquecimento global como fraude da esquerda. Por que prestar atenção a esses cientistas?

Estamos realmente regredindo para o período medieval. Não é uma piada. Se isso está acontecendo no país mais poderoso e mais rico na história, então essa crise não será evitada e tudo isso sobre o que estamos falando não irá importar, em uma geração ou duas.

Ao contrário! Tudo está acontecendo agora e algo tem que ser feito logo, e de forma dedicada e continuada. Não será fácil ter sucesso. Haverá barreiras, dificuldades e fracassos no caminho. A menos que o processo que está tomando espaço aqui e ao redor do mundo, a não que vocês continuem a crescer e se tornar uma força social importante no mundo, as chances de um futuro decente não são muito altas.”

(Após a fala, Chomsky responde a três perguntas do público. Uma delas é sobre representação e a possibilidade de convocar uma greve geral. A seguir, sua fala)

Vocês poderão pensar na greve geral como uma ideia possível, quando a população estiver pronta para isso. Não podemos, é óbvio, sentar aqui e decretar uma greve geral. É preciso haver aprovação e vontade de assumir os riscos, por parte de uma larga parcela da população. Isso exige organização, educação e ativismo. Educação não significa dizer às pessoas em quê elas devem acreditar. Significar aprender, também. Há uma frase de Marx: “A tarefa não é compreender o mundo, mas transformá-lo”. Há uma variante que deveria ser considerada: “Se você quer mudar o mundo numa direção qualquer, você precisa tentar compreendê-lo antes”.

Compreendê-lo não significa ouvir uma fala ou ler um livro, embora isso seja útil. A compreensão vem do aprendizado. O aprendizado deriva da participação. Aprende-se com os outros. Aprende-se com as pessoas que estamos tentando organizar. É preciso conquistar experiência e compreensão necessários para tornar possível implementar ideias e táticas.

Há um longo caminho a percorrer. Não acontece num estalar de dedos. Conquista-se, com trabalho longo e dedicado. Penso que, em muitos sentidos, o aspecto mais interessante do movimento Occupy é a construção de associações e laços que estão se multiplicando. Eles precisam ser mantidos e estendidos para uma ampla parcela da população, que ainda não sabe o que está ocorrendo. Se isso se der, então será possível levantar questões sobre tática como esta, que em certo momento serão muito apropriadas.

* Tradução de Daniela Frabasile.
Howard Zinn foi um ativista político, pode vê-lo aqui.

Mutcha Tinta!



Galeria Transitória. Edital Travessias Subterrâneas.  Clica aqui e confere os artistas que participaram desta intervenção urbana no terminal do Cabral.

Bom artigo sobre Schiele na Obvious

Belo artigo sobre Schiele na Obvious...clica no título e pula pra lá!

11/11/2011

Bruna Tenório


Bruna Tenório é modelo e depois de ver as fotos de Paris de Atget, achei estas, por acaso. Notei as ruas vazias e o sol banhando tudo. Bonito...

David Octavius Hill

David Octavius Hill
Dauthendey disse que os daguerreótipos assustavam as pessoas, a nitidez das fisionomias assustavam e davam a impressão de estar sendo visto por aqueles olhos também. Depois do apogeu da fotografia, o olhar era sempre desviado. Hill depois irá deixar os seus retratados sem olhar para a câmera. A maioria dos fotógrafos desta fase chegou quase aos cem anos: Nadar, Stelzner, Pierson, Bayard...

Revelar em Blossfeldt



Dauthendey

Também citado por Benjamin. Na foto temos o fotógrafo com a esposa e ela fixa o olhar em algo distante e catastrófico. A foto é do tempo do noivado e ele vai encontrá-la morta, mais tarde, com os pulsos cortados em um quarto em Moscou, após o nascimento de seu sexto filho. "A técnica mais exata poderá dar às suas criações um valor mágico que a pintura jamais dará." A natureza que fala à câmera não é a mesma que fala ao olhar, é outra pois foi um espaço trabalhado pelo homem. A fotografia e a psicanálise nos mostram esse incopnsciente, revelam...

David Octavius Hill

A foto dele reclama aquele que viveu ali e que não quer extinguir-se na arte. A aura como a presença que não se repete mesmo próxima de algo muito distante. Trazer aquele momento para nós é reproduzir. Fazer fotos com as famílias abastadas de Paris, como se estivessem em excursões no Oriente é falso.










Bellocq


Francês que morava e trabalhava em Nova Orleans, considerado como um gênio de retratos. Após sua morte foram encontradas 100 chapas de fotografias de prostitutas. Você pode ver um pouco delas aqui. Ele não as julga e elas estão dentro de seus ambientes. Pretty Baby de Louis Malle é inspirado nesta estética de Bellocq.

Eisenstein

Barthes: A Câmara Clara

Percepção subjetiva da realidade na fotografia. O que chama a atenção? Como Benjamin também a percepção do instante, que está lá para sempre mas já passou. Como nesta foto de C. Bresson: quem era a garotinha, de quem era o retrato? Será alguém da família ou ela está entregando uma encomenda. O instante...

Retrato do artista quando jovem: Kafka


Ao se deparar com este retrato, Benjamin percebe o declínio da aura. O contraste surge quando compara os retratos da fase inicial, onde os rostos eram rodeados de silêncio e nada na imagem lembrava o que eles eram ou o que faziam. Era a verdade daquele olhar e como se pudesse ser visto. A foto de Kafka já tem aquela parafernália burguesa que tinha a função de retratar as figuras importantes da sociedade. E os cenários com coqueiros, colunas neoclássicas sobre tapetes e que tentavam reproduzir pinturas.  

Em sua tristeza, esse retrato contrasta com as primeiras fotografias, em que os homens não lançavam no mundo, como o jovem Kafka, um olhar desolado e perdido. Havia uma aura em torno deles, um meio atravessado por seu olhar lhes dava a sensação de plenitude e segurança” (BENJAMIN, 1994, p.98).